Consolidado na França, o Simbolismo reagiu à arte inspirada pela ciência
O soneto Correspondências, que integra a obra As Flores do Mal, publicada em 1857, do poeta francês Charles Baudelaire (1821-1867), é um dos textos de base do período literário conhecido como Simbolismo. O movimento tem origem anglo-saxã (Inglaterra e Alemanha), mas será na França que se consolidará, pela intervenção de poetas como Stéphane Mallarmé e Arthur Rimbaud, além do próprio Baudelaire.
Os artistas de então não acreditam na capacidade de explicação e interpretação do homem e do mundo propaladas pelas correntes científicas e materialistas das últimas décadas do século 19. Na arte, essas correntes influenciaram o nascimento do Realismo e do Naturalismo. Os simbolistas também desconfiavam da promessa de bem-estar, advinda do progresso e do conhecimento produzido pela ciência. Para esses artistas, também a linguagem teria suas limitações para o desvelo da realidade, possuindo, no máximo, capacidade de sugeri-la. Será, aliás, a capacidade sugestiva um dos principais traços do Simbolismo.
Os simbolistas visam, essencialmente, à reintegração de um mundo artificialmente dividido em homem e natureza, matéria e espírito. Vem daí a "teoria das correspondências", de que o poema de Baudelaire é síntese. Em Correspondências, chaga-se a uma reintegração do mundo por meio do princípio de que tudo se corresponde, isto é, tudo no mundo tem vínculo, base comum. O eu-lírico, ao atravessar o "bosque de segredos" do poema, ao desvendar os segredos do mundo, revela a unidade que subjaz a tudo. Reintegra homem e natureza, matéria e espirito. Vem aí a "teoria das correspondências", de que o poema de Baudelaire é síntese. Em Correspondências, chega-se a uma reintegração do mundo por meio do princípio de que tudo se corresponde, isto é, tudo no mundo tem vínculo, base comum. O eu-lírico, ao atravessar o "bosque de segredos" do poema, ao desvendar os segredos do mundo, revela a unidade que subjaz a tudo. Reintegra homem e natureza, mundo material e espiritual.
A sinestesia, figura de linguagem que estabelece o entrecruzamento dos sentidos, o cheiro azul (olfato + visão), o sabor melódico (paladar + audição), a música macia (audição + tato), é ferramenta linguística predileta dos poetas simbolistas. A sinestesia estabelece a correspondência entre objetos e sentidos, que, apenas aparentemente, na superfície, estariam isolados.
Os simbolistas querem a retomada de uma linguagem original, em que a palavra, mais do que representação de um objeto, seria em si um objeto. A poesia, para os simbolistas, é o instrumento de aproximação do homem dos segredos que o mundo visível esconde. Não será meio de revelação, porque os mistérios são, por natureza, indecifráveis.
Dai vem a oposição fundamental entre Simbolismo e Parnasianismo: os simbolistas trabalham os objetos não como fins em si mesmos, como os parnasianos o fazem, mas como meios que sugerem o inefável, o mistério.
A arte da sugestão por essência, por seu caráter imaterial e vaporoso, é a música. Será ela uma das principais fontes sugestivas da literatura simbólica. Os poemas simbolistas "cantam", com o uso frequente de figuras de linguagem, como aliterações (repetições de sons consonantais) e assonâncias (repetições de sons de vogal). Pela sugestão do som das palavras, o leitor seria capaz de mergulhar ainda mais nos sentidos e mistérios do mundo.
Baudelaire, o precursor
O poeta francês subverteu conceitos cristalizados
* O marco inaugural do movimento simbolista é a publicação, em 1857, na França, do livro de poemas As Flores do Mal. Seu autor Charles Baudelaire (1821-1867).
* Com Baudelaire, temas como o tédio da civilização moderna (conhecido como spleen ou mal do século) e o sentimento de expatriação do homem se difundem.
* O sentimento de marginalidade do homem tem conexão, em Baudelaire, com o satanismo.
* Mas Satã surgirá humanizado, não como algoz, como vítima da injustiça do mundo.
* Em As Litanias de Satã, poema que integra As Flores do Mal, se lerá: "Ó tu, o anjo mais belo e sábio entre teus pares, Deus que a sorte traiu e expulsou dos altares, ó Satã, de minha atroz miséria".
As Flores do Mal
Charles Baudelaire
A Natureza é um templo onde vivos pilares
Deixam filtrar não raro insólitos enredos;
O homem o cruza em meio a um bosque de segredos
Que ali o espreitam com seus olhos familiares.
Como ecos longos que à distância se matizam
Numa vertiginosa e lúgubre unidade,
Tão vasta quanto a noite e quanto a claridade,
Os sons, as cores e os perfumes se harmonizam.
Há aromas frescos como a carne dos infantes,
Doces como o oboé, verdes como a campina,
E outros, já dissolutos, ricos e triunfantes,
Com a fluidez daquilo que jamais termina,
Como o almíscar, o incenso e as resinas do Oriente,
Que a glória exaltam dos sentidos e da mente.
Atividade:
01.Assinale a alternativa que indica o período literário que nega o cientificismo, o materialismo e o racionalismo, mas valoriza, em relação a essa postura de uma geração inteira de artistas, todas as formas vagas e espirituais.
a) Barroco.
b) Modernismo.
c) Simbolismo
d) Romantismo
e) Arcadismo.
02.Assinale a alternativa que não se refere ao Simbolismo.
a) Na busca de uma linguagem exótica, colorida, musical, os autores não resistem, muitas vezes, à ideia de criar novos termos.
b) Ocorre grande interesse pelo individual e pelo metafísico.
c) Há assuntos relacionados ao espiritual, místico, religioso.
d) Nota-se o emprego constante de aliterações e assonâncias.
e) Busca-se uma poesia formalmente perfeita, impassível e universalizante.
03.Considere as alternativas abaixo, relativas ao Simbolismo:
I. No plano temático, o Simbolismo foi marcado pelo mistério e pela inquietação mística com problemas transcendentais do homem. No plano formal, caracterizou-se pela musicalidade e certa quebra no ritmo do verso, precursora do verso livre do Modernismo.
II. O Simbolismo, surgido contemporaneamente ao materialismo cientificista, enquanto atitude de espírito, passou ao largo dos maiores problemas da vida nacional. Já a literatura realista-naturalista acompanhou fielmente os modos de pensar das gerações que fizeram e viveram a Primeira República.
III. O Simbolismo, com Cruz e Souza e Alphonsus de Guimaraens, nossos maiores poetas do período, legou-nos uma produção poética que se caracterizou pela busca da "arte em arte", isto é, uma preocupação com o verso artesenal, friamente moldado. Devido a essa tendência à objetividade na composição, o movimento também se denominou "decadentista."
Assinale a alternativa correta:
a) I é falsa; II e III verdadeiras.
b) I, II e III são verdadeiras.
c) I é verdadeira; II e III, falsas.
d) I e II são verdadeiras; III é falsa.
e) I e II são falsas; II, verdadeira.
FIM
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
Parnasianismo - Formalismo
À procura da forma perfeita
Afastados do mundo, os autores do Parnasianismo defenderam a arte pela arte
A publicação das antologias francesas Parnasse Contemporain, a partir de 1866, impulsiona o Parnasianismo, movimento que resgata o ideal greco-romano clássico de arte, beleza, equilíbrio e objetividade. Os parnasianos se voltam radicalmente contra os ideais românticos de arte e de beleza, então amplamente estabelecidos na comunidade literária e na sociedade em geral e baseados em instabilidade e subjetividade muito acentuadas.
Importava, aos parnasianos, combater o que seus autores chamavamde exagero da arte romântica, o excesso de fantasia e de emoção, e restituir o culto à forma como fundamento. O movimento literário parnasiano se difundirá no Brasil a partir da década de 1870 e conquistará muitos adeptos, tornando-se referência de arte no país, pelo menos entre os leitores de amplas fatias da elite.
A primeira obra brasileira considerada genuinamente parnasiana é Fanfarras, de 1882, de Teófilo Dias. Pela qualidade de sua produção, os poetas Olavo Bilac (1865-1918), Raimundo Correia (1860-1911) e Alberto de Oliveira (1857-1937) formam a "tríade parnasiana".
Entre suas obras mais conhecidas estão Via Láctea, Sarças de Fogo e O Caçador de Esmeraldas, de Olavo Bilac; Sinfonias e Versos e Versões, de Raimundo Correia; e Meridionais e Versos e Rimas, de Alberto de Oliveira.
O poema Profissão de Fé, de Bilac, é a expressão formal dos pressupostos poéticos do Parnasianismo no Brasil. Nesse texto, o trabalho do poeta é comparado ao do ourives. Isto é, o poeta é um artesão meticuloso da palavra, da expressão verbal, que é o seu ouro, em busca da forma perfeita, sua joia sem defeito. O eu-lírico parnasiano, como expresso em Profissão de Fé, não se envolve com as questões do seu tempo, sociais e políticas. Diferentemente dos versos engajados do abolicionista Castro Alves, já na terceira fase do Romantismo, o artista parnasiano trabalha "longe de tudo".
A objetividade clássica defendida pelos parnasianos se concretiza como tema, muitas vezes, a própria obra de arte. Foram numerosos poemas dedicados a retratar objetos artísticos, como joias, bordados e vasos, em especial
A "arte pela arte", isto é, a arte concentrada nos seus mecanismos artesenais, afeita à forma perfeita, avessa ao contexto e à emoção, transforma-se, aqui, na "arte sobre a arte". A escolha de temas mais objetivos e concretos serve bem ao próposito parnasiano de retirar do poesia tudo o que fosse emoção, chegando, até mesmo, a despersonalizar o trabalho artístico. Daí, resultam poemas em que o eu-lírico não se coloca, isto é, obras literárias em verso em que não há traços marcados de subjetividade.
A forma clássica, equilibrada e racional do soneto é uma das mais exploradas pelos parnasianos. O soneto Vila Rica, de Olavo Bilac, é considerado pela crítica literária em geral um dos momentos mais elevados do Parnasianismo. Com riqueza vocabular e métrica e rimas rigorosas, o eu-lírico descreve o pôr do sol na cidade mineira de Ouro Preto, que antes se chamava Vila Rica, centro barroco da riqueza da época das grandes minas de ouro.
Embora seja o poeta parnasiano por excelência, o próprio Bilac fugiu, em algumas de seuas obras, aos preceitos clássicos defendidos por ele, como em Inania Verba, texto com traços característicos do Romantismo.
Contra a sensibilidade
O Parnasiano optou por retomar valores clássicos. Observe :
a) Romantismo:
* Negação de valores clássicos
* Instabilidade
* Subjetividade
* Emoção e fantasia
* Individualidade
* Liberdade
* Participação
b) Parnasianismo:
* Revalorização dos valores clássicos
* Estabilidade
* Objetividade
* Razão
* Despersonalização
* Convenção
* Observação
Atividade:
01.Na esteira da busca________, o Parnasianismo tende ao ____________. Dessa forma, __________ a possibilidade de vínculo com a realidade.
a) da impessoalidade/dogmatismo/estabelece.
b) da perfeição formal/esteticismo/rejeta.
c) da perfeição formal/ilogismo/estabelece.
d) do psicólogismo/ilogismo/refuta.
e) da impossibilidade/descritivismo/recupera.
02.Leia as seguintes observações sobre a estética parnasiana:
I. O poeta parnasiano pretende ser um artesão, um ourives que molda friamente o seu verso. Tal atitude de objetividade levou-o a preferir temas distantes no tempo. No aspecto formal, sua meta era a perfeição, tendo sido o soneto a forma de composição predominante.
II. O Parnasianismo legou-nos, em sua produção em poesia e prosa, obras cuja temática é sentimental e amorosa. A mulher surge como a Musa inspiradora de versos ternos e afetivos, em meio à paisagem brasileira com sua natureza típica e exuberante.
III. No Parnasianismo, a atitude de contenção emotiva do poeta e a busca obsessiva da perfeição na métrica e nas rimas eram tal que, em um poema do modernismo Manuel Bandeira, este fora comparado ao "sapo tanoeiro", numa crítica à "arte pela arte".
assinale agora a alternativa correta:
a) Apenas a afirmativa I é verdadeira.
b) Apenas as afirmativas I e II são verdadeiras.
c) Apenas as afirmativas I e III são verdadeiras.
d) Apenas a afirmativa II é verdadeira.
e) Apenas a afirmativa III é verdadeira.
03.Inania Verba
................................................
O pensamento ferve, e é um turbilhão de lava:
A forma, fria e espessa, é um sepulcro de
nev...
E a Palavra pesada abafa a Ideia leve,
Que, perfume e clarão, refulgia e voava.
Quem o molde achará para a expressão
de tudo?
Ai! Quem há de dizer as ânsias infinitas
Do sonho? E o céu que foge à mão que
se levanta?
..............................................................
(Olavo Bilac, Poesias)
Indique a alternativa que NÃO está de acordo com o poema.
a) O poeta parnasiano privilegiou a forma, a maneira mais perfeita que encontrou para efetivar sua arte, mesmo que, para isso, ele tivesse de sacrificar suas emoções. Nesse sentido, os versos do poeta Olavo Bilac são uma crítica ao parnasiano.
b) O poema fala da luta entre ideias e palavras e entre forma e conteúdo, quando estes fracassam ao traduzir nossos sentimentos. As estrofes citadas são um derramamento da alma sobre essa luta, contrariando os preceitos parnasianos de contenção lírica.
c) O tema basico das estrofes apresentadas acima é o amor irrealizado, que causa grandes sofrimentos ao poeta.
d) Os versos são alexandrinos, muito apreciados pelos parnasianos.
e) O verso "E a Palavra pesada abafa a Ideia leve" contém uma antítese, que representa a contradição entre forma e conteúdo exposta pelo poeta.
FIM
Afastados do mundo, os autores do Parnasianismo defenderam a arte pela arte
A publicação das antologias francesas Parnasse Contemporain, a partir de 1866, impulsiona o Parnasianismo, movimento que resgata o ideal greco-romano clássico de arte, beleza, equilíbrio e objetividade. Os parnasianos se voltam radicalmente contra os ideais românticos de arte e de beleza, então amplamente estabelecidos na comunidade literária e na sociedade em geral e baseados em instabilidade e subjetividade muito acentuadas.
Importava, aos parnasianos, combater o que seus autores chamavamde exagero da arte romântica, o excesso de fantasia e de emoção, e restituir o culto à forma como fundamento. O movimento literário parnasiano se difundirá no Brasil a partir da década de 1870 e conquistará muitos adeptos, tornando-se referência de arte no país, pelo menos entre os leitores de amplas fatias da elite.
A primeira obra brasileira considerada genuinamente parnasiana é Fanfarras, de 1882, de Teófilo Dias. Pela qualidade de sua produção, os poetas Olavo Bilac (1865-1918), Raimundo Correia (1860-1911) e Alberto de Oliveira (1857-1937) formam a "tríade parnasiana".
Entre suas obras mais conhecidas estão Via Láctea, Sarças de Fogo e O Caçador de Esmeraldas, de Olavo Bilac; Sinfonias e Versos e Versões, de Raimundo Correia; e Meridionais e Versos e Rimas, de Alberto de Oliveira.
O poema Profissão de Fé, de Bilac, é a expressão formal dos pressupostos poéticos do Parnasianismo no Brasil. Nesse texto, o trabalho do poeta é comparado ao do ourives. Isto é, o poeta é um artesão meticuloso da palavra, da expressão verbal, que é o seu ouro, em busca da forma perfeita, sua joia sem defeito. O eu-lírico parnasiano, como expresso em Profissão de Fé, não se envolve com as questões do seu tempo, sociais e políticas. Diferentemente dos versos engajados do abolicionista Castro Alves, já na terceira fase do Romantismo, o artista parnasiano trabalha "longe de tudo".
A objetividade clássica defendida pelos parnasianos se concretiza como tema, muitas vezes, a própria obra de arte. Foram numerosos poemas dedicados a retratar objetos artísticos, como joias, bordados e vasos, em especial
A "arte pela arte", isto é, a arte concentrada nos seus mecanismos artesenais, afeita à forma perfeita, avessa ao contexto e à emoção, transforma-se, aqui, na "arte sobre a arte". A escolha de temas mais objetivos e concretos serve bem ao próposito parnasiano de retirar do poesia tudo o que fosse emoção, chegando, até mesmo, a despersonalizar o trabalho artístico. Daí, resultam poemas em que o eu-lírico não se coloca, isto é, obras literárias em verso em que não há traços marcados de subjetividade.
A forma clássica, equilibrada e racional do soneto é uma das mais exploradas pelos parnasianos. O soneto Vila Rica, de Olavo Bilac, é considerado pela crítica literária em geral um dos momentos mais elevados do Parnasianismo. Com riqueza vocabular e métrica e rimas rigorosas, o eu-lírico descreve o pôr do sol na cidade mineira de Ouro Preto, que antes se chamava Vila Rica, centro barroco da riqueza da época das grandes minas de ouro.
Embora seja o poeta parnasiano por excelência, o próprio Bilac fugiu, em algumas de seuas obras, aos preceitos clássicos defendidos por ele, como em Inania Verba, texto com traços característicos do Romantismo.
Contra a sensibilidade
O Parnasiano optou por retomar valores clássicos. Observe :
a) Romantismo:
* Negação de valores clássicos
* Instabilidade
* Subjetividade
* Emoção e fantasia
* Individualidade
* Liberdade
* Participação
b) Parnasianismo:
* Revalorização dos valores clássicos
* Estabilidade
* Objetividade
* Razão
* Despersonalização
* Convenção
* Observação
Atividade:
01.Na esteira da busca________, o Parnasianismo tende ao ____________. Dessa forma, __________ a possibilidade de vínculo com a realidade.
a) da impessoalidade/dogmatismo/estabelece.
b) da perfeição formal/esteticismo/rejeta.
c) da perfeição formal/ilogismo/estabelece.
d) do psicólogismo/ilogismo/refuta.
e) da impossibilidade/descritivismo/recupera.
02.Leia as seguintes observações sobre a estética parnasiana:
I. O poeta parnasiano pretende ser um artesão, um ourives que molda friamente o seu verso. Tal atitude de objetividade levou-o a preferir temas distantes no tempo. No aspecto formal, sua meta era a perfeição, tendo sido o soneto a forma de composição predominante.
II. O Parnasianismo legou-nos, em sua produção em poesia e prosa, obras cuja temática é sentimental e amorosa. A mulher surge como a Musa inspiradora de versos ternos e afetivos, em meio à paisagem brasileira com sua natureza típica e exuberante.
III. No Parnasianismo, a atitude de contenção emotiva do poeta e a busca obsessiva da perfeição na métrica e nas rimas eram tal que, em um poema do modernismo Manuel Bandeira, este fora comparado ao "sapo tanoeiro", numa crítica à "arte pela arte".
assinale agora a alternativa correta:
a) Apenas a afirmativa I é verdadeira.
b) Apenas as afirmativas I e II são verdadeiras.
c) Apenas as afirmativas I e III são verdadeiras.
d) Apenas a afirmativa II é verdadeira.
e) Apenas a afirmativa III é verdadeira.
03.Inania Verba
................................................
O pensamento ferve, e é um turbilhão de lava:
A forma, fria e espessa, é um sepulcro de
nev...
E a Palavra pesada abafa a Ideia leve,
Que, perfume e clarão, refulgia e voava.
Quem o molde achará para a expressão
de tudo?
Ai! Quem há de dizer as ânsias infinitas
Do sonho? E o céu que foge à mão que
se levanta?
..............................................................
(Olavo Bilac, Poesias)
Indique a alternativa que NÃO está de acordo com o poema.
a) O poeta parnasiano privilegiou a forma, a maneira mais perfeita que encontrou para efetivar sua arte, mesmo que, para isso, ele tivesse de sacrificar suas emoções. Nesse sentido, os versos do poeta Olavo Bilac são uma crítica ao parnasiano.
b) O poema fala da luta entre ideias e palavras e entre forma e conteúdo, quando estes fracassam ao traduzir nossos sentimentos. As estrofes citadas são um derramamento da alma sobre essa luta, contrariando os preceitos parnasianos de contenção lírica.
c) O tema basico das estrofes apresentadas acima é o amor irrealizado, que causa grandes sofrimentos ao poeta.
d) Os versos são alexandrinos, muito apreciados pelos parnasianos.
e) O verso "E a Palavra pesada abafa a Ideia leve" contém uma antítese, que representa a contradição entre forma e conteúdo exposta pelo poeta.
FIM
Parnasianismo - Poemas
VILA RICA
Olavo Bilac
O ouro fulvo do ocaso as velhas casas cobre;
Sangram, em laivos de ouro, as minas, que ambição
Na torturada entranha abriu da terra nobre:
E cada cicatriz brilha como um brasão.
O ângelus plange ao longe em doloroso dobre,
O último ouro de sol morre na cerração.
E, austero, amortalhando a urbe gloriosa e pobre,
O crepúsculo cai como uma extrema-unção.
Agora, para além do cerro, o céu parece
Feito de um ouro ancião, que o tempo enegreceu...
A neblina, roçando o chão, cicia, em prece,
Como uma procissão espectral que se move...
Dobra o sino... Soluça um verso de Dirceu...
Sobre a triste Ouro Preto o ouro dos astros chove.
PROFISSÃO DE FÉ
Olavo Bilac
Não quero o Zeus Capitolino
Hercúleo e belo,
Talhar no mármore divino
Com o camartelo.
Que outro - não eu! - a pedra corte
Para, brutal,
Erguer de Atene o altivo porte
Descomunal.
Mais que esse vulto extraordinário,
Que assombra a vista,
seduz-me um leve relicário
De fino artista.
Invejo o ourives quando escrevo:
Imito o amor
Com que ele, em ouro, o alto relevo
Faz de uma flor.
Imito-o. E, pois, nem de Carrara
A pedra firo:
O alvo cristal, a pedra rara,
O ônix prefiro.
Por isso, corre, por servir-me,
Sobre o papel
A pena, como em prata firme
Corre o cinzel.
Corre; desenha, enfeita a imagem,
A ideia veste:
Cinge-lhe ao corpo a ampla roupagem
Azul-celeste. (...)
Atividade:
01.No poema Profissão de Fé, de Olavo Bilac, o trabalho do poeta é comparado ao trabalho artesenal de um ourives. Extraia do poema elementos que justifiquem tal afirmação.
02.O Parnasianismo pregava a volta ao ideal clássico de beleza, equilíbrio e objetividade, em oposição à subjetividade do Romantismo. Reconheça os traços clássicos do poema Vila Rica.
03.Os parnasianos ficaram conhecidos como cultores da forma perfeita, da "arte pela arte" ou da "arte sobre a arte". Exemplifique com os poemas de Olavo Bilac.
FIM
Olavo Bilac
O ouro fulvo do ocaso as velhas casas cobre;
Sangram, em laivos de ouro, as minas, que ambição
Na torturada entranha abriu da terra nobre:
E cada cicatriz brilha como um brasão.
O ângelus plange ao longe em doloroso dobre,
O último ouro de sol morre na cerração.
E, austero, amortalhando a urbe gloriosa e pobre,
O crepúsculo cai como uma extrema-unção.
Agora, para além do cerro, o céu parece
Feito de um ouro ancião, que o tempo enegreceu...
A neblina, roçando o chão, cicia, em prece,
Como uma procissão espectral que se move...
Dobra o sino... Soluça um verso de Dirceu...
Sobre a triste Ouro Preto o ouro dos astros chove.
PROFISSÃO DE FÉ
Olavo Bilac
Não quero o Zeus Capitolino
Hercúleo e belo,
Talhar no mármore divino
Com o camartelo.
Que outro - não eu! - a pedra corte
Para, brutal,
Erguer de Atene o altivo porte
Descomunal.
Mais que esse vulto extraordinário,
Que assombra a vista,
seduz-me um leve relicário
De fino artista.
Invejo o ourives quando escrevo:
Imito o amor
Com que ele, em ouro, o alto relevo
Faz de uma flor.
Imito-o. E, pois, nem de Carrara
A pedra firo:
O alvo cristal, a pedra rara,
O ônix prefiro.
Por isso, corre, por servir-me,
Sobre o papel
A pena, como em prata firme
Corre o cinzel.
Corre; desenha, enfeita a imagem,
A ideia veste:
Cinge-lhe ao corpo a ampla roupagem
Azul-celeste. (...)
Atividade:
01.No poema Profissão de Fé, de Olavo Bilac, o trabalho do poeta é comparado ao trabalho artesenal de um ourives. Extraia do poema elementos que justifiquem tal afirmação.
02.O Parnasianismo pregava a volta ao ideal clássico de beleza, equilíbrio e objetividade, em oposição à subjetividade do Romantismo. Reconheça os traços clássicos do poema Vila Rica.
03.Os parnasianos ficaram conhecidos como cultores da forma perfeita, da "arte pela arte" ou da "arte sobre a arte". Exemplifique com os poemas de Olavo Bilac.
FIM
quinta-feira, 18 de agosto de 2011
Realismo - determinismo
Surgido em paralelo ao Realismo, o Naturalismo segue a linha determinista
Naturalismo e Realismo costumam ser apresentados juntos porque surgiram no mesmo período histórico e possuem muitos elementos em comum. Suas obras têm como características o objetivismo, universalismo e materialismo. Na literatura naturalista, contudo, há uma presença maior do determinismo - linha de pensamento desenvolvida pelo filósofo francês Hippolyte Taine segundo a qual o homem é determinado pelo meio em que vive, pela sua raça (estágio de sua evolução física) e pelo momento histórico.
Os romances naturalistas mostram personagens cujo destino é determinado por esses elementos, e a narrativa assume um caráter de tese científica. O principal autor dessa escola, no Brasil, foi o maranhense Aluísuo Azevedo. Além dos já citados O Mulato e O Cortiço, ele escreveu Casa de Pensão e outras histórias em que a tragédia e a fatalidade eram decorrências diretas das situações nas quais viviam os personagens.
O Mulato narra a história de Raimundo, que tem ascendência negra e é discriminado em São Luís do Maranhão. Em Casa de Pensão, um jovem e fútil herdeiro é explorado por uma família no Rio de Janeiro. Mas a obra mais célebre de Aluísio Azevedo é O Cortuço (tão marcante que ganhou duas adaptações para o cinema, uma lançada em 1948 e outra trinta anos depois).
Dois espaços são explorados no romance. O primeiro é o cortiço, amontoado de casebres mal-arranjados, onde vivem os pobres. Esse espaço representa a mistura de raças e a promiscuidade das classes baixas. Funciona como um organismo vivo. O segundo espaço, ao lado, é o sobrado aristocrático do comercianre Miranda e sua família. O sobrado representa a burguesia ascendente do século19. Esses locais fictícios são enquadrados no cenário do bairro de Botafogo, no Rio, explorando a exuberante natureza local como meio determinante. O sol abrasador do litoral funciona como corruptor dos habitantes.
O livro narra, inicialmente, a saga de João Romão, dono de uma pedreira, de uma taverna e de um cortiço, que caminha rumo ao enriquecimento. Para acumular capital, ele explora todos os empregados. Em oposição a Romão, surge a figura do comerciante Miranda, que tem uma condição social bem mais elevada.
No cortiço, paralelamente, estão os moradores de menor ambição financeira. Destacam-se Rita Baiana e Capoeira Firmo, Jerônimo e Piedade. Um exemplo de como o romance procura demonstrar a má influência do meio sobre o homem é o caso do português Jerônimo, que tem uma vida exemplar até cair nas graças da mulata Rita Baiana. Opera-se uma transformação no português trabalhador, que muda todos os seus hábitos.
Mais do que empregar os preceitos do Naturalismo, a obra mostra práticas recorrentes no Brasil do século 19. Na situação de capitalismo incipiente, o explorador vivia muito próximo do explorado, daí a estalagem de João Romão estar junto dos pobres moradores do cortiço.
Ao lado, o burguês Miranda vive em seu palacete e teme o crescimento do cortiço. Por tudo isso, pode-se dizer que O Cortiço não é somente um romance naturalista, mas uma alegoria completa ao Brasil.
Além de Aluísio Azevedo
Conheça outros dois autores naturalistas brasileiros de grande importância
* Inglês de Souza - Como muitos de seus contemporâneos, o escritor paraense foi praticante do romance de tese, no qual se busca demonstrar como o meio condiciona o comportamento das personagens. Publicou obras sobre a região amazônica: O Cacaulista, Histórias de um Pescador, Coronel Sangrado, O Missionário e Contos Amazônicos. Seu romance considerado o mais bem-sucedido é o Missionário, que conta a história do padre Antônio de Maraes, missionário em uma pequena cidade na selva amazônica. Apesar de sua formação religiosa, ele sucumbe ao ambiente de permissividade e vive um romance ardente com uma mestiça de 15 anos.
* Adolfo Caminha - Da experiência como marinheiro, colheu elementos para escrever o romance Bom-Crioulo. Depois de se tornar funcionário público, publicou A Normalista, criticando a sociedade conservadora cearense. Em Bom-Crioulo, Caminha aborda um tema incomum para a literatura brasileira da época: a homossexualidade. Um jovem marinheiro desperta a paixão de Amaro, apelidado de Bom-Crioulo. O relacionamento é descrito em detalhes e tem um fim trágico: Amaro mata Aleixo por ciúme.
O Cortiço
Aluísio Azevedo
"Foi um forrobodó valente"
(...) Entretanto, a chuva cessou completaamente, o sol reapareceu, como para despedir-se; andorinhas esgaivotaram no ar; e o cortiço palpitou inteiro na trêfega alegria do domingo. Nas salas do barão a festa engrossava, cada vez mais estrepitosa; de vez em quando vinha de lá uma taça quebrar-se no pátio da estalagem, levantando protestos e surriadas.
A noite chegou muito bonita, com um belo luar de lua cheia, que começou ainda com o crepúsculo; e o samba rompeu mais forte e mais cedo que de costume, incitado pela grande animação que havia em casa do Miranda.
Foi um forrobodó valente. A Rita Baiana essa noite estava de veia para a coisa; estava inspirada! divina! Nunca dançara com tanta graça e tamanha lubricidade!
Também cantou. E cada verso que vinha da sua boca de mulata era um arrulhar choroso de pomba no cio. E o Firmo, bêbado de volúpia, enroscava-se todo ao violão; e o violão e ele gemiam com o mesmo gosto, grunhindo, ganindo, miando, com todas as vozes de bichos sensuais, num desespero de luxúria que penetrava até ao tutano como línguas finíssimas de cobra.
Jerônimo não pôde conter-se: no momento em que a baiana, ofegante de cansaço, caiu exausta, assentando-se ao lado dele, o português segredou-lhe com a voz estrangulada de paixão:
- Meu bem! se você quiser estar comigo, dou uma perna ao demo!
Atividade:
01.Em relação aos gêneros literários e à periodização literária brasileira, e considerando que O Cortiço foi publicado em 1890, considerada a época áurea dos movimentos do Realismo e do Naturalismo no Brasil, julgue as seguintes afirmações sobre o trecho apresentado acima nesta página:
1. Evidenciam-se no texto elementos científico-positivistas característicos do Naturalismo.
2. O fragmento, apesar da época em que foi publicado, ainda apresenta traços do Arcadismo, um movimento bastante anterior e marcado pela revalorização dos valores da Antiguidade clássica.
3. Percebe-se no texto uma dessacralização da mulher, em face dos padrões românticos.
Está(ão) correta(s):
a) Apenas 1.
b) 1 e 2.
c) 1, 2 e 3.
d) Apenas 3.
e) 1 e 3.
02.Sobre os autores do Realismo e do Naturalismo, numere a lista de afirmações apresentada abaixo e relacione cada uma delas com os dois nomes de autores apresentados.
1. Machado de Assis
2. Aluísio Azevedo
( ) Em O Cortiço, as ideias e as infliências que configuraram o Naturalismo se conjugam para revelar as misérias existentes na capital do país.
( ) O autor inova na literatura brasileira pelo seu senso de coletividade, pela forma inovadora como é realizada a descrição de multidão.
( ) Este autor escreveu um romance, em que ataca o racismo, o reacionarismo clerical, a estreiteza do universo provinciano e descreve a lenta e difícil ascensão social do mestiço brasileiro.
( ) O autor de obras-primas, como Quincas Borba e Dom Casmurro, é irônico, pessimista e crítico. Suas tramas quebram a estrutura linear e seu estilo é redefinido e elegante, esmerando-se na correção linguística.
( ) Na sua primeira fase, estava comprometido com o idealismo romântico. Na segunda, mais maduro, fazia a análise psicológica e social de temas da burguesia da época: o adultério, o parasitismo social, o egoísmo, a vaidade, o interesse, além da confusão entre razão e loucura.
A sequência correta é:
a) 1, 1, 2, 1 e 2.
b) 2, 2, 1, 2 e 1.
c) 1, 2, 1, 1 e 2.
d) 2, 2, 2, 1 e 1.
e) 2, 2, 1, 1 e 1.
FIM
Naturalismo e Realismo costumam ser apresentados juntos porque surgiram no mesmo período histórico e possuem muitos elementos em comum. Suas obras têm como características o objetivismo, universalismo e materialismo. Na literatura naturalista, contudo, há uma presença maior do determinismo - linha de pensamento desenvolvida pelo filósofo francês Hippolyte Taine segundo a qual o homem é determinado pelo meio em que vive, pela sua raça (estágio de sua evolução física) e pelo momento histórico.
Os romances naturalistas mostram personagens cujo destino é determinado por esses elementos, e a narrativa assume um caráter de tese científica. O principal autor dessa escola, no Brasil, foi o maranhense Aluísuo Azevedo. Além dos já citados O Mulato e O Cortiço, ele escreveu Casa de Pensão e outras histórias em que a tragédia e a fatalidade eram decorrências diretas das situações nas quais viviam os personagens.
O Mulato narra a história de Raimundo, que tem ascendência negra e é discriminado em São Luís do Maranhão. Em Casa de Pensão, um jovem e fútil herdeiro é explorado por uma família no Rio de Janeiro. Mas a obra mais célebre de Aluísio Azevedo é O Cortuço (tão marcante que ganhou duas adaptações para o cinema, uma lançada em 1948 e outra trinta anos depois).
Dois espaços são explorados no romance. O primeiro é o cortiço, amontoado de casebres mal-arranjados, onde vivem os pobres. Esse espaço representa a mistura de raças e a promiscuidade das classes baixas. Funciona como um organismo vivo. O segundo espaço, ao lado, é o sobrado aristocrático do comercianre Miranda e sua família. O sobrado representa a burguesia ascendente do século19. Esses locais fictícios são enquadrados no cenário do bairro de Botafogo, no Rio, explorando a exuberante natureza local como meio determinante. O sol abrasador do litoral funciona como corruptor dos habitantes.
O livro narra, inicialmente, a saga de João Romão, dono de uma pedreira, de uma taverna e de um cortiço, que caminha rumo ao enriquecimento. Para acumular capital, ele explora todos os empregados. Em oposição a Romão, surge a figura do comerciante Miranda, que tem uma condição social bem mais elevada.
No cortiço, paralelamente, estão os moradores de menor ambição financeira. Destacam-se Rita Baiana e Capoeira Firmo, Jerônimo e Piedade. Um exemplo de como o romance procura demonstrar a má influência do meio sobre o homem é o caso do português Jerônimo, que tem uma vida exemplar até cair nas graças da mulata Rita Baiana. Opera-se uma transformação no português trabalhador, que muda todos os seus hábitos.
Mais do que empregar os preceitos do Naturalismo, a obra mostra práticas recorrentes no Brasil do século 19. Na situação de capitalismo incipiente, o explorador vivia muito próximo do explorado, daí a estalagem de João Romão estar junto dos pobres moradores do cortiço.
Ao lado, o burguês Miranda vive em seu palacete e teme o crescimento do cortiço. Por tudo isso, pode-se dizer que O Cortiço não é somente um romance naturalista, mas uma alegoria completa ao Brasil.
Além de Aluísio Azevedo
Conheça outros dois autores naturalistas brasileiros de grande importância
* Inglês de Souza - Como muitos de seus contemporâneos, o escritor paraense foi praticante do romance de tese, no qual se busca demonstrar como o meio condiciona o comportamento das personagens. Publicou obras sobre a região amazônica: O Cacaulista, Histórias de um Pescador, Coronel Sangrado, O Missionário e Contos Amazônicos. Seu romance considerado o mais bem-sucedido é o Missionário, que conta a história do padre Antônio de Maraes, missionário em uma pequena cidade na selva amazônica. Apesar de sua formação religiosa, ele sucumbe ao ambiente de permissividade e vive um romance ardente com uma mestiça de 15 anos.
* Adolfo Caminha - Da experiência como marinheiro, colheu elementos para escrever o romance Bom-Crioulo. Depois de se tornar funcionário público, publicou A Normalista, criticando a sociedade conservadora cearense. Em Bom-Crioulo, Caminha aborda um tema incomum para a literatura brasileira da época: a homossexualidade. Um jovem marinheiro desperta a paixão de Amaro, apelidado de Bom-Crioulo. O relacionamento é descrito em detalhes e tem um fim trágico: Amaro mata Aleixo por ciúme.
O Cortiço
Aluísio Azevedo
"Foi um forrobodó valente"
(...) Entretanto, a chuva cessou completaamente, o sol reapareceu, como para despedir-se; andorinhas esgaivotaram no ar; e o cortiço palpitou inteiro na trêfega alegria do domingo. Nas salas do barão a festa engrossava, cada vez mais estrepitosa; de vez em quando vinha de lá uma taça quebrar-se no pátio da estalagem, levantando protestos e surriadas.
A noite chegou muito bonita, com um belo luar de lua cheia, que começou ainda com o crepúsculo; e o samba rompeu mais forte e mais cedo que de costume, incitado pela grande animação que havia em casa do Miranda.
Foi um forrobodó valente. A Rita Baiana essa noite estava de veia para a coisa; estava inspirada! divina! Nunca dançara com tanta graça e tamanha lubricidade!
Também cantou. E cada verso que vinha da sua boca de mulata era um arrulhar choroso de pomba no cio. E o Firmo, bêbado de volúpia, enroscava-se todo ao violão; e o violão e ele gemiam com o mesmo gosto, grunhindo, ganindo, miando, com todas as vozes de bichos sensuais, num desespero de luxúria que penetrava até ao tutano como línguas finíssimas de cobra.
Jerônimo não pôde conter-se: no momento em que a baiana, ofegante de cansaço, caiu exausta, assentando-se ao lado dele, o português segredou-lhe com a voz estrangulada de paixão:
- Meu bem! se você quiser estar comigo, dou uma perna ao demo!
Atividade:
01.Em relação aos gêneros literários e à periodização literária brasileira, e considerando que O Cortiço foi publicado em 1890, considerada a época áurea dos movimentos do Realismo e do Naturalismo no Brasil, julgue as seguintes afirmações sobre o trecho apresentado acima nesta página:
1. Evidenciam-se no texto elementos científico-positivistas característicos do Naturalismo.
2. O fragmento, apesar da época em que foi publicado, ainda apresenta traços do Arcadismo, um movimento bastante anterior e marcado pela revalorização dos valores da Antiguidade clássica.
3. Percebe-se no texto uma dessacralização da mulher, em face dos padrões românticos.
Está(ão) correta(s):
a) Apenas 1.
b) 1 e 2.
c) 1, 2 e 3.
d) Apenas 3.
e) 1 e 3.
02.Sobre os autores do Realismo e do Naturalismo, numere a lista de afirmações apresentada abaixo e relacione cada uma delas com os dois nomes de autores apresentados.
1. Machado de Assis
2. Aluísio Azevedo
( ) Em O Cortiço, as ideias e as infliências que configuraram o Naturalismo se conjugam para revelar as misérias existentes na capital do país.
( ) O autor inova na literatura brasileira pelo seu senso de coletividade, pela forma inovadora como é realizada a descrição de multidão.
( ) Este autor escreveu um romance, em que ataca o racismo, o reacionarismo clerical, a estreiteza do universo provinciano e descreve a lenta e difícil ascensão social do mestiço brasileiro.
( ) O autor de obras-primas, como Quincas Borba e Dom Casmurro, é irônico, pessimista e crítico. Suas tramas quebram a estrutura linear e seu estilo é redefinido e elegante, esmerando-se na correção linguística.
( ) Na sua primeira fase, estava comprometido com o idealismo romântico. Na segunda, mais maduro, fazia a análise psicológica e social de temas da burguesia da época: o adultério, o parasitismo social, o egoísmo, a vaidade, o interesse, além da confusão entre razão e loucura.
A sequência correta é:
a) 1, 1, 2, 1 e 2.
b) 2, 2, 1, 2 e 1.
c) 1, 2, 1, 1 e 2.
d) 2, 2, 2, 1 e 1.
e) 2, 2, 1, 1 e 1.
FIM
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
Realismo - no Brasil
Dois autores dão início ao movimento no país
O início do período realista da literatura brasileira é marcado por duas obras importantes, ambas publicadas em 1881: O Mulato, de Aluísio Azevedo, Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.
O fim do século 19 foi marcado por grandes transformações no Brasil. A monarquia entrou em decadência, foi aprovada a Lei Áurea, que aboliu a escravatura, e a economia - principalmente o café - voltou-se para o mercado externo. À maneira do que ocorria na Europa, desenvolveu-se um espírito crítico em relação à sociedade burguesa e à Igreja Católica. As ciências e as artes foram influenciadas diretamente pelo realismo europeu. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis cria um narrador que resolve contar sua vida depois de morto. A inovação do método narrativo e o sarcasmo com que a obra expôs os privilégios da elite da época mudaram o panorama da literatura brasileira.
O livro aborda as experiências de um filho abastado da elite brasileira do século 19, Brás Cubas. Começa por sua morte, descreve a cena do enterro, até retornar à infância. A narração é feita em primeira pessoa: o narrador se autointitula um defunto-autor. Sem pertencer mais ao mundo terreno, ele consegue ficar além de nosso julgamento e, assim, contar suas memórias da forma como melhor lhe convém.
A infância de Brás Cubas, como a de todo membro da sociedade patriarcal brasileira da época, é cheia de caprichos patrocinados pelos pais. Na escola, Brás era amigo da traquinagem de Quincas Borba, que aparecerá no futuro defendendo o "humanismo", misto da teoria darwinista com o borbismo: "Aos vencedores, as batatas", ou seja, só os mais fortes e aptos podem sobreviver (é comum interpretar-se o Humanismo como caricatura do positivismo.O mais importante, contudo, é perceber a tendência de Memórias Póstumas de expor o entusiasmo burguês com os avanços científicos e filosóficos às suas próprias fragilidades).
Depois de uma decepção amorosa e estudos frustantes em Portugal, Brás Cubas segue sua existência parasitária. Enamora-se de Virgília, parente de um ministro da corte, aconselhado pelo pai, que via no casamento com ela um futuro político. No entanto, ela se casa com Lobo Neves, que arrebata do protagonista não apenas a noiva, como também a candidatura a deputado que o pai preparava.
A obra termina, nas palavras do narrador, com um capítulo só de negativas. Brás Cubas não se casa; não consegue concluir o emplastro, medicamento que imaginara criar para finalmente dar um objetivo à vida vazia e conquistar a glória na sociedade; torna-se deputado, mas seu desempenho é medíocre; e não tem filhos.
A força da obra está justameente nessas não realizações. Os leitores ficam sempre à espera do desenlace que a narrativa parece prometer. Ao fim, o que permanece é o vazio da existência do protagonista. A obra de Machado é dividida em duas fases - a primeira romântica e a segunda, realista. Memórias Póstumas, Dom Casmurro e Quincas Borba são seus romances mais comentados. Mas várias outras obras são célebres, entre elas o conto O Alienista.
Dom Casmurro é o apelido do narrador, que conta seu passado, incluindo o romance atormentado com Capitu. Em Quincas Borba, a personagem que dá nome ao livro - a mesma que conviveu com outro personagem machadiano, Brás Cubas - morre e deixa sua fortuna a seu enfermeiro, Rubião, que se torna esbanjador e enlouquece.
Vida no internato
O "naturalismo subjetivo" de Raul Pompeia
Outro grande representante do realismo/naturalismo, Raul Pompeia escreveu uma obra que não se limita a seguir os preceitos desse movimento literário: O Ateneu.
O livro narra os dois anos em que Sérgio, o protagonista, vive no internato chamado Ateneu. De acordo com os preceitos do romance naturalista, depreende-se em O Ateneu uma crítica feroz às instituições de ensino das elites do século 19. O colégio é visto como um microcosmo da sociedade. Para isso, o narrador utiliza descrições de toda ordem, físicas ou psicológicas, levadas a cabo co rigor e riqueza de detalhes quase científicos.
Há, porém, um aspecto que deixa a leitura mais complexa. A estética naturalista concebe um narrador como observador de fora, tal um cientista que se isola do mundo que examina. Em O Ateneu, há um narrador-protagonista - um adulto que relembra a época no internato. O foco em primeira pessoa faz com que a compreensão sobre o que é o Ateneu se estruture por meio das impressões subjetivas do personagem principal.
Memórias Póstumas de Brás Cubas
Machado de Assis
Capítulo 27 - Virgília?
Virgília? Mas então era a mesma senhora que alguns anos depois...? A mesma; era justamente a senhora, que em 1869 devia assistir aos meus últimos dias, e que antes, muito antes, teve larga parte nas minhas íntimas sensações. Naquele tempo contava apenas uns quinze ou dezesseis anos; e era talvez a mais atrevida criatura da nossa raça, e, com certeza, a mais voluntariosa. Não digo que já lhe coubesse a primazia da beleza, entre as mocinhas do tempo, porque isto não é romance, em que o autor sobredoura a realidade e fecha os olhos às sardas e espinhas; mas também não digo que lhe maculasse o rosto nenhuma sarda ou espinha, não. Era bonita, fresca, saída das mãos da natureza, cheia daquele feitiço, precário e eterno, que o indivíduo passa a outro indivíduo, para os fins secretos da criação.
Capítulo 160 - Das Negativas
Entre a morte do Quincas Borba e a minha, mediaram os sucessos narrados na primeira parte do livro. O principal deles foi a invenção do emplasto Brás Cubas, que morreu comigo, por causa da moléstia que apanhei. Divino emplasto, tu me darias o primeiro lugar entre os homens (...). O caso determinou o contrário; e aí vos ficais eternamente hipocondríacos.
Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade e que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. (...) Somadas umas coisas e outras,, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e consequintemente que sai quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas - Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.
(Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas)
Atividades:
01."Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para que a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo."
A condição na qual anteriormente se apresenta o narrador das Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, permitiu-lhe:
a) isentar-se de qualquer compromisso com a realidade objetiva, permanecendo no plano do imaginário e do fantástico.
b) manter um frio julgamento de sua própria história, dispensando as marcas subjetivas da ironia e do humor.
c) reconstruir caprichosamente a totalidade da própria história,com humor crítico e discreta melancolia.
d) pairar acima das fraquezas humanas, analisando-as com rigor ético e severidade moral.
e) satirizar as tendências românticas e espiritualistas da época, submetendo-as a uma visão cientificista da História.
02.O texto é de uma crônica de Machado de Assis: "Um dia começou a guerra do Paraguai e durou cinco anos. João repicava e dobrava, dobrava e repicava pelos mortos e pelas vitórias. Quando se decretou o ventre livre dos escravos, João é que repicou. Quando se fez a abolição completa, quem repicou foi Hoão. Um dia proclamou-se a república. João repicou por ela, repicara pelo Império, se o Império retornasse."(Machado de Assis, Crônica sobre a Morte do Escravo João, 1897.)
Estão corretas:
a) por ser escravo tocava os sinos, às escondidas, quando ocorriam fatos ligados à Abolição.
b) não poderia tocar os sinos pelo retorno do imperio, visto que era escreva.
c) tocou os sinos pela República, proclamada pelos abolicionistas que vieram libertá-lo.
d) tocava os sinos quando ocorriam fatos marcantes porque era costume fazê-lo.
e) tocou os sinos pelo retorno do Império, comemorando a volta da Princesa Isabel.
FIM
O início do período realista da literatura brasileira é marcado por duas obras importantes, ambas publicadas em 1881: O Mulato, de Aluísio Azevedo, Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.
O fim do século 19 foi marcado por grandes transformações no Brasil. A monarquia entrou em decadência, foi aprovada a Lei Áurea, que aboliu a escravatura, e a economia - principalmente o café - voltou-se para o mercado externo. À maneira do que ocorria na Europa, desenvolveu-se um espírito crítico em relação à sociedade burguesa e à Igreja Católica. As ciências e as artes foram influenciadas diretamente pelo realismo europeu. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis cria um narrador que resolve contar sua vida depois de morto. A inovação do método narrativo e o sarcasmo com que a obra expôs os privilégios da elite da época mudaram o panorama da literatura brasileira.
O livro aborda as experiências de um filho abastado da elite brasileira do século 19, Brás Cubas. Começa por sua morte, descreve a cena do enterro, até retornar à infância. A narração é feita em primeira pessoa: o narrador se autointitula um defunto-autor. Sem pertencer mais ao mundo terreno, ele consegue ficar além de nosso julgamento e, assim, contar suas memórias da forma como melhor lhe convém.
A infância de Brás Cubas, como a de todo membro da sociedade patriarcal brasileira da época, é cheia de caprichos patrocinados pelos pais. Na escola, Brás era amigo da traquinagem de Quincas Borba, que aparecerá no futuro defendendo o "humanismo", misto da teoria darwinista com o borbismo: "Aos vencedores, as batatas", ou seja, só os mais fortes e aptos podem sobreviver (é comum interpretar-se o Humanismo como caricatura do positivismo.O mais importante, contudo, é perceber a tendência de Memórias Póstumas de expor o entusiasmo burguês com os avanços científicos e filosóficos às suas próprias fragilidades).
Depois de uma decepção amorosa e estudos frustantes em Portugal, Brás Cubas segue sua existência parasitária. Enamora-se de Virgília, parente de um ministro da corte, aconselhado pelo pai, que via no casamento com ela um futuro político. No entanto, ela se casa com Lobo Neves, que arrebata do protagonista não apenas a noiva, como também a candidatura a deputado que o pai preparava.
A obra termina, nas palavras do narrador, com um capítulo só de negativas. Brás Cubas não se casa; não consegue concluir o emplastro, medicamento que imaginara criar para finalmente dar um objetivo à vida vazia e conquistar a glória na sociedade; torna-se deputado, mas seu desempenho é medíocre; e não tem filhos.
A força da obra está justameente nessas não realizações. Os leitores ficam sempre à espera do desenlace que a narrativa parece prometer. Ao fim, o que permanece é o vazio da existência do protagonista. A obra de Machado é dividida em duas fases - a primeira romântica e a segunda, realista. Memórias Póstumas, Dom Casmurro e Quincas Borba são seus romances mais comentados. Mas várias outras obras são célebres, entre elas o conto O Alienista.
Dom Casmurro é o apelido do narrador, que conta seu passado, incluindo o romance atormentado com Capitu. Em Quincas Borba, a personagem que dá nome ao livro - a mesma que conviveu com outro personagem machadiano, Brás Cubas - morre e deixa sua fortuna a seu enfermeiro, Rubião, que se torna esbanjador e enlouquece.
Vida no internato
O "naturalismo subjetivo" de Raul Pompeia
Outro grande representante do realismo/naturalismo, Raul Pompeia escreveu uma obra que não se limita a seguir os preceitos desse movimento literário: O Ateneu.
O livro narra os dois anos em que Sérgio, o protagonista, vive no internato chamado Ateneu. De acordo com os preceitos do romance naturalista, depreende-se em O Ateneu uma crítica feroz às instituições de ensino das elites do século 19. O colégio é visto como um microcosmo da sociedade. Para isso, o narrador utiliza descrições de toda ordem, físicas ou psicológicas, levadas a cabo co rigor e riqueza de detalhes quase científicos.
Há, porém, um aspecto que deixa a leitura mais complexa. A estética naturalista concebe um narrador como observador de fora, tal um cientista que se isola do mundo que examina. Em O Ateneu, há um narrador-protagonista - um adulto que relembra a época no internato. O foco em primeira pessoa faz com que a compreensão sobre o que é o Ateneu se estruture por meio das impressões subjetivas do personagem principal.
Memórias Póstumas de Brás Cubas
Machado de Assis
Capítulo 27 - Virgília?
Virgília? Mas então era a mesma senhora que alguns anos depois...? A mesma; era justamente a senhora, que em 1869 devia assistir aos meus últimos dias, e que antes, muito antes, teve larga parte nas minhas íntimas sensações. Naquele tempo contava apenas uns quinze ou dezesseis anos; e era talvez a mais atrevida criatura da nossa raça, e, com certeza, a mais voluntariosa. Não digo que já lhe coubesse a primazia da beleza, entre as mocinhas do tempo, porque isto não é romance, em que o autor sobredoura a realidade e fecha os olhos às sardas e espinhas; mas também não digo que lhe maculasse o rosto nenhuma sarda ou espinha, não. Era bonita, fresca, saída das mãos da natureza, cheia daquele feitiço, precário e eterno, que o indivíduo passa a outro indivíduo, para os fins secretos da criação.
Capítulo 160 - Das Negativas
Entre a morte do Quincas Borba e a minha, mediaram os sucessos narrados na primeira parte do livro. O principal deles foi a invenção do emplasto Brás Cubas, que morreu comigo, por causa da moléstia que apanhei. Divino emplasto, tu me darias o primeiro lugar entre os homens (...). O caso determinou o contrário; e aí vos ficais eternamente hipocondríacos.
Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade e que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. (...) Somadas umas coisas e outras,, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e consequintemente que sai quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas - Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.
(Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas)
Atividades:
01."Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para que a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo."
A condição na qual anteriormente se apresenta o narrador das Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, permitiu-lhe:
a) isentar-se de qualquer compromisso com a realidade objetiva, permanecendo no plano do imaginário e do fantástico.
b) manter um frio julgamento de sua própria história, dispensando as marcas subjetivas da ironia e do humor.
c) reconstruir caprichosamente a totalidade da própria história,com humor crítico e discreta melancolia.
d) pairar acima das fraquezas humanas, analisando-as com rigor ético e severidade moral.
e) satirizar as tendências românticas e espiritualistas da época, submetendo-as a uma visão cientificista da História.
02.O texto é de uma crônica de Machado de Assis: "Um dia começou a guerra do Paraguai e durou cinco anos. João repicava e dobrava, dobrava e repicava pelos mortos e pelas vitórias. Quando se decretou o ventre livre dos escravos, João é que repicou. Quando se fez a abolição completa, quem repicou foi Hoão. Um dia proclamou-se a república. João repicou por ela, repicara pelo Império, se o Império retornasse."(Machado de Assis, Crônica sobre a Morte do Escravo João, 1897.)
Estão corretas:
a) por ser escravo tocava os sinos, às escondidas, quando ocorriam fatos ligados à Abolição.
b) não poderia tocar os sinos pelo retorno do imperio, visto que era escreva.
c) tocou os sinos pela República, proclamada pelos abolicionistas que vieram libertá-lo.
d) tocava os sinos quando ocorriam fatos marcantes porque era costume fazê-lo.
e) tocou os sinos pelo retorno do Império, comemorando a volta da Princesa Isabel.
FIM
domingo, 14 de agosto de 2011
Realismo - Romance: influências
A ciência toma posse
A empolgação com o avança científico em várias áreas influencia a literatura
Na segunda metade do século 19, avanços científicos voltaram a transformar a visão de mundo do ser humano, como ocorrera em outras épocas. Dessa vez, as conquistas do conhecimento em relação à natureza e às relações sociais foram proclamadas como garantias de um futuro melhor para a civilização. Esse cientificismo reforçou o pensamento matarialista. Teorias importantes consolidaram essa visão:
* O evolucionismo, baseado no princípio da seleção natural, que permite a sobrevivência apenas das espécies e dos indivíduos;
* O determinismo, segundo o qual o ser humano é resultado quase inevitável da genética, do ambiente e do momento;
* E o positivismo, que sobrepôs as ciências experimentais à especulação metafísica ou teológica.
Todas essas tendências apontam para uma visão realista do mundo, em oposição à idealização romântica.
No meio literário português, o novo clima motivou uma polêmica entre autores românticos e jovens poetas que os consideravam ultrapassados. Foi a Questão Coimbã, assim chamada porque Antero de Quental, representante da Escola Coimbrã, respondeu às críticas dos românticos com um folhetim em que indicou a concepção estética do Realismo. O movimento prosseguiu com a realização das Conferências do Cassino Lisbonense, nas quais foram estudadas as ideias realistas. O Realismo começou efetivamente quando um dos participantes dos eventos, Eça de Queirós, lançou o romance O Crime do Padre Amaro, em 1875.
Duas características podem resumir a nova atitude:
* Objetividade, na forma da linguagem neutra e sem rebuscamentos, em acordo com o cientificismo que dominou as áreas do conhecimento.
* Crítica à sociedade, por meio das novas ferramentas de análise fria e objetiva das relações humanas, sem tolerar a hipocrisia, a ociosidade, a desigualdade e outros problemas identificados no meio burguês e na Igreja Católica.
Em O Crime do Padre Amaro, Eça de Queirós ataca a hipocrisia no clero. O protagonista contraria os votos religiosos e tem um filho com uma jovem, mas não assume o fato e prefere manter as aparências. A obra pertence à segunda fase do escritor, marcada por romances fortemente naturalistas. O Naturalismo pode ser considerado uma fase mais cientificista e determinista do Realismo, como veremos adiante. A primeira fase de Eça compreende textos ainda com características românticas. Também pertence `segunda fase O Primo Basílio, romance no qual Eça de Queirós critica a burguesia lisboeta pelo moralismo hipócrita, o egoísmo e o adultério.
O pós-realismo de Eça
A Cidade e as Serras é o marco de uma nova fase na obra do escritor português
A terceira fase do grande escritor português caracteriza-se pela concepção com os ideais realistas e pelo retorno a valores como o nacionalismo e a vida pura no campo.
Em A Cidade e as Serras, Eça de Queirós aborda a temática do campo versus cidade. O narrador-personagem, José Fernandes, é quem conta a história do amigo Jacinto, o protagonista. Jacinto vive na Paris do século 19, então considerada o centro do mundo. Portugal, no entanto, mantinha-se como um país agrário e decadente, em uma época de grande entusiasmo com as teorias positivistas.
Jacinto elabora uma filosofia de vida:
"A felicidade dos indivíduos,
como a das nações, se realiza
pelo ilimitado desenvolvimento
da mecânica e da erudição".
Mas esse entusiasmo de Jacinto por Paris se revela desastroso. Zé Fernandes descreve uma acentuada decadência física do protagonista, de quem se havia separado por sete anos.
O narrador, então, também se deixa levar por Paris ao ser dominado pela paixão carnal por uma prostituta. O caso contraria as teorias de Jacinto, expostas no começo do livro, segundo as quais o homem se tornava um selvagem no campo. Nesse caso, foi a cidade de Paris que transformou Zé Fernandes num escravo de seus instintos.
Segue-se uma série de episódios que ilustram o rídiculo que se escondia sob a pretensa superioridade dos pariseenses. Jacinto torna-se entediado, doente. Então, ocorre uma reviravolta: a igreja onde estavam enterrados seus ovós vem abaixo durante uma tormenta. Ele manda que se reconstrua tudo,, sem se importar com os gastos.
Na viagem de volta a Portugal, Jacinto perde quase a bagagem. Seu país, no entanto, devolve a saúde ao protagonista, que, revigorado, promove diversas melhorias em Tormes. Finalmente, ele se casa com Joaninha, camponesa e prima de Zé Fernandes. Na última cena do livro, Zé Fernandes, também enfastiado de Paris, parte para Tormes - o "castelo da grã-ventura" - com Jacinto e Joaninha.
Atividade:
01.Considere o enunciado abaixo e as três possibilidades para completá-lo. Em A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós, através das personagens Zé Fernandes e Jacinto de Tormes, que vivem uma vida sofisticada na Paris finissecular, percebe-se
I. uma visão irònica da modernidade e do progresso através de descrições de inventos reais e fictícios.
II. uma consciência dos conflitos que a vida moderna traz ao indivíduo que vive nas grandes cidades.
III. uma mudança progressiva quanto ao modo de valorizar a vida junto à natureza e os benefícios dela decorrentes.
Quais estão corretas?
a) Apenas I.
b) Apenas II.
c) Apenas III.
d) Apenas I e II.
e) I, II e III.
02.Mais uma vez, considere o enunciado abaixo e leia as três afirmações sugeridas como formas de completá-lo. O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós, é um romance...
1. em que a ironia queirosiana se volta para a burguesia lisboeta e suas mazelas.
2. no qual o autor denuncia a corrupção da Igreja, criticando, assim, a sociedade portuguesa, marcada por um falso catolicismo..
3. cujo painel social abrange todas as classes, denotando, dessa forma, o profundo envolvimento do autor com as tendências socialistas da época.
Quais das propostas apresentadas acima estão corretas?
a) Apenas I.
b) Apenas 2.
c) Apenas 3.
d) Apenas 2 e 3.
e) 1, 2 e 3.
03.Das alternativas a seguir, indique a que não condiz com o romance O Primo Basílio, de Eça de Queirós.
a) É uma obra realista-naturalista e nela o narrador aparece como um observador imparcial que vê os acontecimentos com neutralidade.
b) Apresenta como tema central o adultério e o autor explora o erotismo ao detalhar a relação entre os amantes.
c) Mostra-se como uma lente de aumento sobre a intimidade das famílias e revela criticamente a pequena burguesia do final do século 19 em Lisboa.
d) Ataca as instituições sociais como a Família, a Igreja, a Escola e o Estado, sempre com a preocupação de fazer um vasto inquérito da sociedade portuguesa e moralizar os costumes da época.
e) Caracteriza-se por ironia fina, caricaturismo e humor na composição das personagens, entre as quais se destaca o Conselheiro Acácio.
04.Assinale a alternativa incorreta a respeito de Eça de Queirós.
a) Embora tenha militado intensamente na implantação do Realismo em Portugal, não particupou das Conferências do Cassino Lisbonense.
b) Costuma-se dividir sua obra em três fases, sendo a segunda aquela em que desenvolveu um estilo realista implacável.
c) Sua obra é considerada o ponto mais alto da prosa realista portuguesa.
d) Em O Crime de Padre Amaro, critica a sociedade burguesa de Portugal e mostra a influência do clero na sociedade provinciana.
e) Em O Primo Basílio, temos um romance no qual se denuncia a rede de vícios e de adultérios que infestava Lisboa de então.
FIM
A empolgação com o avança científico em várias áreas influencia a literatura
Na segunda metade do século 19, avanços científicos voltaram a transformar a visão de mundo do ser humano, como ocorrera em outras épocas. Dessa vez, as conquistas do conhecimento em relação à natureza e às relações sociais foram proclamadas como garantias de um futuro melhor para a civilização. Esse cientificismo reforçou o pensamento matarialista. Teorias importantes consolidaram essa visão:
* O evolucionismo, baseado no princípio da seleção natural, que permite a sobrevivência apenas das espécies e dos indivíduos;
* O determinismo, segundo o qual o ser humano é resultado quase inevitável da genética, do ambiente e do momento;
* E o positivismo, que sobrepôs as ciências experimentais à especulação metafísica ou teológica.
Todas essas tendências apontam para uma visão realista do mundo, em oposição à idealização romântica.
No meio literário português, o novo clima motivou uma polêmica entre autores românticos e jovens poetas que os consideravam ultrapassados. Foi a Questão Coimbã, assim chamada porque Antero de Quental, representante da Escola Coimbrã, respondeu às críticas dos românticos com um folhetim em que indicou a concepção estética do Realismo. O movimento prosseguiu com a realização das Conferências do Cassino Lisbonense, nas quais foram estudadas as ideias realistas. O Realismo começou efetivamente quando um dos participantes dos eventos, Eça de Queirós, lançou o romance O Crime do Padre Amaro, em 1875.
Duas características podem resumir a nova atitude:
* Objetividade, na forma da linguagem neutra e sem rebuscamentos, em acordo com o cientificismo que dominou as áreas do conhecimento.
* Crítica à sociedade, por meio das novas ferramentas de análise fria e objetiva das relações humanas, sem tolerar a hipocrisia, a ociosidade, a desigualdade e outros problemas identificados no meio burguês e na Igreja Católica.
Em O Crime do Padre Amaro, Eça de Queirós ataca a hipocrisia no clero. O protagonista contraria os votos religiosos e tem um filho com uma jovem, mas não assume o fato e prefere manter as aparências. A obra pertence à segunda fase do escritor, marcada por romances fortemente naturalistas. O Naturalismo pode ser considerado uma fase mais cientificista e determinista do Realismo, como veremos adiante. A primeira fase de Eça compreende textos ainda com características românticas. Também pertence `segunda fase O Primo Basílio, romance no qual Eça de Queirós critica a burguesia lisboeta pelo moralismo hipócrita, o egoísmo e o adultério.
O pós-realismo de Eça
A Cidade e as Serras é o marco de uma nova fase na obra do escritor português
A terceira fase do grande escritor português caracteriza-se pela concepção com os ideais realistas e pelo retorno a valores como o nacionalismo e a vida pura no campo.
Em A Cidade e as Serras, Eça de Queirós aborda a temática do campo versus cidade. O narrador-personagem, José Fernandes, é quem conta a história do amigo Jacinto, o protagonista. Jacinto vive na Paris do século 19, então considerada o centro do mundo. Portugal, no entanto, mantinha-se como um país agrário e decadente, em uma época de grande entusiasmo com as teorias positivistas.
Jacinto elabora uma filosofia de vida:
"A felicidade dos indivíduos,
como a das nações, se realiza
pelo ilimitado desenvolvimento
da mecânica e da erudição".
Mas esse entusiasmo de Jacinto por Paris se revela desastroso. Zé Fernandes descreve uma acentuada decadência física do protagonista, de quem se havia separado por sete anos.
O narrador, então, também se deixa levar por Paris ao ser dominado pela paixão carnal por uma prostituta. O caso contraria as teorias de Jacinto, expostas no começo do livro, segundo as quais o homem se tornava um selvagem no campo. Nesse caso, foi a cidade de Paris que transformou Zé Fernandes num escravo de seus instintos.
Segue-se uma série de episódios que ilustram o rídiculo que se escondia sob a pretensa superioridade dos pariseenses. Jacinto torna-se entediado, doente. Então, ocorre uma reviravolta: a igreja onde estavam enterrados seus ovós vem abaixo durante uma tormenta. Ele manda que se reconstrua tudo,, sem se importar com os gastos.
Na viagem de volta a Portugal, Jacinto perde quase a bagagem. Seu país, no entanto, devolve a saúde ao protagonista, que, revigorado, promove diversas melhorias em Tormes. Finalmente, ele se casa com Joaninha, camponesa e prima de Zé Fernandes. Na última cena do livro, Zé Fernandes, também enfastiado de Paris, parte para Tormes - o "castelo da grã-ventura" - com Jacinto e Joaninha.
Atividade:
01.Considere o enunciado abaixo e as três possibilidades para completá-lo. Em A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós, através das personagens Zé Fernandes e Jacinto de Tormes, que vivem uma vida sofisticada na Paris finissecular, percebe-se
I. uma visão irònica da modernidade e do progresso através de descrições de inventos reais e fictícios.
II. uma consciência dos conflitos que a vida moderna traz ao indivíduo que vive nas grandes cidades.
III. uma mudança progressiva quanto ao modo de valorizar a vida junto à natureza e os benefícios dela decorrentes.
Quais estão corretas?
a) Apenas I.
b) Apenas II.
c) Apenas III.
d) Apenas I e II.
e) I, II e III.
02.Mais uma vez, considere o enunciado abaixo e leia as três afirmações sugeridas como formas de completá-lo. O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós, é um romance...
1. em que a ironia queirosiana se volta para a burguesia lisboeta e suas mazelas.
2. no qual o autor denuncia a corrupção da Igreja, criticando, assim, a sociedade portuguesa, marcada por um falso catolicismo..
3. cujo painel social abrange todas as classes, denotando, dessa forma, o profundo envolvimento do autor com as tendências socialistas da época.
Quais das propostas apresentadas acima estão corretas?
a) Apenas I.
b) Apenas 2.
c) Apenas 3.
d) Apenas 2 e 3.
e) 1, 2 e 3.
03.Das alternativas a seguir, indique a que não condiz com o romance O Primo Basílio, de Eça de Queirós.
a) É uma obra realista-naturalista e nela o narrador aparece como um observador imparcial que vê os acontecimentos com neutralidade.
b) Apresenta como tema central o adultério e o autor explora o erotismo ao detalhar a relação entre os amantes.
c) Mostra-se como uma lente de aumento sobre a intimidade das famílias e revela criticamente a pequena burguesia do final do século 19 em Lisboa.
d) Ataca as instituições sociais como a Família, a Igreja, a Escola e o Estado, sempre com a preocupação de fazer um vasto inquérito da sociedade portuguesa e moralizar os costumes da época.
e) Caracteriza-se por ironia fina, caricaturismo e humor na composição das personagens, entre as quais se destaca o Conselheiro Acácio.
04.Assinale a alternativa incorreta a respeito de Eça de Queirós.
a) Embora tenha militado intensamente na implantação do Realismo em Portugal, não particupou das Conferências do Cassino Lisbonense.
b) Costuma-se dividir sua obra em três fases, sendo a segunda aquela em que desenvolveu um estilo realista implacável.
c) Sua obra é considerada o ponto mais alto da prosa realista portuguesa.
d) Em O Crime de Padre Amaro, critica a sociedade burguesa de Portugal e mostra a influência do clero na sociedade provinciana.
e) Em O Primo Basílio, temos um romance no qual se denuncia a rede de vícios e de adultérios que infestava Lisboa de então.
FIM
sábado, 13 de agosto de 2011
Realismo e naturalismo - Romance
A Cidade e as Serras
Eça de Queirós
"A Eletricidade que se sumia"
No entanto Jacinto, desesperado com tantos desastres humilhadores - as torneiras que desoldavam, os elevadores que emperravam, o Vapor que se encolhia, a Eletricidade que se sumia, decidiu valorosamente vencer as resistências finais da Matéria e da Força por novas e mais poderosas acumulações de Mecanismos. E nessas semanas de Abril, enquanto as rosas desabrochavam, a nossa agitada casa, entre aquelas quietas casas dos Campos Elísios que preguiçavam ao sol, incessantemente tremeu, envolta num pó de caliça e de empreitada, com o bruto picar de pedra, o retininte martelar de ferro. Nos silenciosos corredores, onde me era doce fumar antes do almoço um pensativo cigarro, circulavam agora, desde madrugada, ranchos de operários, de blusas brancas, assobiando o Petit-Bleu, e intimidando os meus passos, quando eu atravessava em fralda e chinelas para o banho ou para outros retiros. Apenas se varava com perícia algum andaime obstruindo as portas - logo se esbarrava com uma pilha de tábuas, uma seira de ferramentas ou um balde enorme de argamassa. E os pedaços de soalho levantado mostravam tristemente, como num cadáver aberto, todos interiores do 202, a ossatura, os sensíveis nervos de arame, os negros intestinos de ferro fundido.
Cada dia estacava diante do portão alguma lenta carroça, de onde os criados, em mangas de camisa, descarregavam caixotes de madeira, fardos de lona, que se despregavam e se descosiam numa sala asfaltada, ao fundo do jardim, por trás da sebe de lilases. E eu descia, reclamado pelo meu Príncipe, para admirar uma nova Máquina que nos tornaria a vida mais fácil, estabelecendo dum modo mais seguro o nosso domínio sobre a Substância. Durante os calores, que apertaram depois da Ascensão, ensaiamos esperançadamente, para refrescar as águas minerais, a Soda-Water e os Medocs ligeiros, três geleiras, que se amontoaram na copa sucessivamente desprestigiadas. Com os morangos novos apareceu um instrumentozinho astuto, para lhes arrancar os pés, delicadamente. Depois recebemos outro, prodigioso, de prata e cristal, para remexer freneticamente as saladas; e, na primeira vez o experimentei, todo o vinagre esparrilhou sobre os olhos do meu Príncipe, que fugiu aos uivos! Mas ele teimava... Nos atos mais elementares, para aliviar ou apressar o esforço, se socorria Jacinto da dinâmica. E agora era por intervenção duma máquina que abotoava as ceroulas.
E simultaneamente, ou em obediência à sua Ideia, ou governado pelo despotismo do hábito, não cessava, ao lado de Mecânica acumulada, de acumular Erudição. Ó, a invasão dos livros no 202! Solitários, aos pares, em pacotes, dentro de caixas, franzinos, gordos e repletos de autoridade, envoltos em plebeia capa amarela ou revestidos de marroquim e ouro, perpetuamente, torrencialmente, invadiam por todas as largas portas a Biblioteca, onde se estiravam sobre o tapete, se repimpavam nas cadeiras macias, se entronizavam em cima das mesas robustas, e sobretudo trepavam contra as janelas, em sôfregas pilhas, como se, sufocados pela sua própria multidão, procurassem com ânsia espaço e ar! Na erudita nave, onde apenas alguns livros mais altos restavam descobertos, sem tapume de livros, perenemente se adensava um pensativo crepúsculo de Outono enquanto fora Junho refulgia. A Biblioteca transborda através de todo a 202! Não se abria um armário sem que de dentro se despenhasse, desamparada, uma pilha de livros! Não se franzia uma cortina, sem que detrás surgisse, hirta, uma ruma de livros! E imensa foi a minha indignação quando uma manhã, correndo urgentemente, de mãos nas alças, encontrei, vedada por uma tremenda coleção de Estudos Sociais, a porta do Water-Closet! (...)
Atividade:
01.O trecho acima do romance A Cidade e as Serras, faz críticas ácidas ao ambiente urbano. Explique as críticas em função do período literário em questão, o Realismo.
02.Em oposição ao ambiente urbano, a obra apresenta outro contexto e coloca os dois em discussão. Qual é o outro contexto? Qual é o conflito retratado?
FIM
Eça de Queirós
"A Eletricidade que se sumia"
No entanto Jacinto, desesperado com tantos desastres humilhadores - as torneiras que desoldavam, os elevadores que emperravam, o Vapor que se encolhia, a Eletricidade que se sumia, decidiu valorosamente vencer as resistências finais da Matéria e da Força por novas e mais poderosas acumulações de Mecanismos. E nessas semanas de Abril, enquanto as rosas desabrochavam, a nossa agitada casa, entre aquelas quietas casas dos Campos Elísios que preguiçavam ao sol, incessantemente tremeu, envolta num pó de caliça e de empreitada, com o bruto picar de pedra, o retininte martelar de ferro. Nos silenciosos corredores, onde me era doce fumar antes do almoço um pensativo cigarro, circulavam agora, desde madrugada, ranchos de operários, de blusas brancas, assobiando o Petit-Bleu, e intimidando os meus passos, quando eu atravessava em fralda e chinelas para o banho ou para outros retiros. Apenas se varava com perícia algum andaime obstruindo as portas - logo se esbarrava com uma pilha de tábuas, uma seira de ferramentas ou um balde enorme de argamassa. E os pedaços de soalho levantado mostravam tristemente, como num cadáver aberto, todos interiores do 202, a ossatura, os sensíveis nervos de arame, os negros intestinos de ferro fundido.
Cada dia estacava diante do portão alguma lenta carroça, de onde os criados, em mangas de camisa, descarregavam caixotes de madeira, fardos de lona, que se despregavam e se descosiam numa sala asfaltada, ao fundo do jardim, por trás da sebe de lilases. E eu descia, reclamado pelo meu Príncipe, para admirar uma nova Máquina que nos tornaria a vida mais fácil, estabelecendo dum modo mais seguro o nosso domínio sobre a Substância. Durante os calores, que apertaram depois da Ascensão, ensaiamos esperançadamente, para refrescar as águas minerais, a Soda-Water e os Medocs ligeiros, três geleiras, que se amontoaram na copa sucessivamente desprestigiadas. Com os morangos novos apareceu um instrumentozinho astuto, para lhes arrancar os pés, delicadamente. Depois recebemos outro, prodigioso, de prata e cristal, para remexer freneticamente as saladas; e, na primeira vez o experimentei, todo o vinagre esparrilhou sobre os olhos do meu Príncipe, que fugiu aos uivos! Mas ele teimava... Nos atos mais elementares, para aliviar ou apressar o esforço, se socorria Jacinto da dinâmica. E agora era por intervenção duma máquina que abotoava as ceroulas.
E simultaneamente, ou em obediência à sua Ideia, ou governado pelo despotismo do hábito, não cessava, ao lado de Mecânica acumulada, de acumular Erudição. Ó, a invasão dos livros no 202! Solitários, aos pares, em pacotes, dentro de caixas, franzinos, gordos e repletos de autoridade, envoltos em plebeia capa amarela ou revestidos de marroquim e ouro, perpetuamente, torrencialmente, invadiam por todas as largas portas a Biblioteca, onde se estiravam sobre o tapete, se repimpavam nas cadeiras macias, se entronizavam em cima das mesas robustas, e sobretudo trepavam contra as janelas, em sôfregas pilhas, como se, sufocados pela sua própria multidão, procurassem com ânsia espaço e ar! Na erudita nave, onde apenas alguns livros mais altos restavam descobertos, sem tapume de livros, perenemente se adensava um pensativo crepúsculo de Outono enquanto fora Junho refulgia. A Biblioteca transborda através de todo a 202! Não se abria um armário sem que de dentro se despenhasse, desamparada, uma pilha de livros! Não se franzia uma cortina, sem que detrás surgisse, hirta, uma ruma de livros! E imensa foi a minha indignação quando uma manhã, correndo urgentemente, de mãos nas alças, encontrei, vedada por uma tremenda coleção de Estudos Sociais, a porta do Water-Closet! (...)
Atividade:
01.O trecho acima do romance A Cidade e as Serras, faz críticas ácidas ao ambiente urbano. Explique as críticas em função do período literário em questão, o Realismo.
02.Em oposição ao ambiente urbano, a obra apresenta outro contexto e coloca os dois em discussão. Qual é o outro contexto? Qual é o conflito retratado?
FIM
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